Amadora Liberal

Uma cidade sem imprensa é uma cidade menos livre

Uma cidade sem imprensa é uma cidade menos livre


A Amadora tem muitos problemas visíveis. Tem também um que raramente se discute, mas que é profundamente democrático: não tem comunicação social local digna desse nome.

Não é uma questão corporativa dos jornalistas. Não é saudade dos jornais em papel. É uma questão de liberdade e de qualidade da democracia local.

Durante décadas, a Amadora teve voz própria. Teve jornais que acompanhavam a vida do concelho, registavam conflitos, davam espaço às associações, aos comerciantes, aos clubes e aos cidadãos. O Notícias da Amadora, fundado em 1958, é o exemplo mais marcante: foi um espaço de intervenção cívica, de memória coletiva e, nos momentos mais difíceis da história portuguesa, de resistência à censura. A edição em papel cessou em 2007, por dificuldades financeiras. O Jornal da Amadora, fundado em 1977, fez parte dessa mesma história — acompanhou durante décadas a transformação de uma cidade que cresceu depressa, muitas vezes de forma desordenada.

Hoje, a realidade é outra.

A Amadora tem mais de 170 mil habitantes, seis freguesias, uma enorme diversidade social, desafios urbanísticos sérios, problemas de mobilidade, tensões no espaço público, necessidades habitacionais por resolver. É um dos municípios mais densos e complexos do país. E não tem, com expressão proporcional a essa dimensão, comunicação social local profissionalizada com capacidade real de investigação.

O que existe, na prática, é a TV Amadora. E é aqui que a conversa fica desconfortável.

Segundo os dados públicos disponíveis no Portal BASE, surgem contratos associados à TV Amadora e a Eduardo dos Santos Mesquita, identificado nos contratos como representante legal da TVAMADORA, com várias entidades públicas locais: Câmara Municipal da Amadora, SIMAS Oeiras e Amadora, e Juntas de Freguesia da Venteira, Mina de Água e Falagueira-Venda Nova. Não são contratos pontuais. São relações financeiras renovadas ano após ano.

Isto não é um ataque a quem trabalha na TV Amadora, nem uma acusação de ilegalidade. A questão é outra: pode um meio de comunicação escrutinar com independência entidades com as quais mantém contratos recorrentes? Numa democracia local saudável, esta pergunta não é ofensiva. É indispensável.

Uma autarquia comunica obras inauguradas, eventos e prémios. O jornalismo pergunta quanto custaram, quem decidiu, que alternativas existiam, que promessas ficaram por cumprir. A comunicação institucional mostra a cidade vista pelo poder. O jornalismo mostra a cidade vista pelos cidadãos.

Quando falta essa mediação independente, a política local torna-se mais opac, não de forma dramática, mas gradualmente. As decisões continuam a ser tomadas, os orçamentos aprovados, os contratos celebrados. O que vai desaparecendo é a capacidade de acompanhar isso de forma regular e compreensível.

O resultado não é uma conspiração. É uma assimetria. Quem governa tem meios, canais e capacidade de comunicação permanente. Quem fiscaliza tem muito menos. A narrativa oficial ocupa o espaço que deveria pertencer ao debate. E quanto mais consolidado é o poder, mais necessário se torna o escrutínio externo. Não porque o poder seja necessariamente ilegítimo, mas porque nenhum poder deve habituar-se à ausência de perguntas difíceis.

Um cidadão que não conhece as decisões municipais vota com menos informação. Um eleitor que só recebe comunicação oficial avalia o poder com base numa narrativa incompleta. Uma comunidade sem espaços de debate plural fica mais vulnerável ao rumor e à indiferença. A liberdade política precisa de informação e de contraditório. Sem isso, o voto existe, mas é menos livre.

Quando um munícipe tem um problema com habitação, ruído, licenciamento ou atendimento público, precisa de canais onde a sua voz possa ser ouvida. A imprensa local independente funciona muitas vezes como último recurso cívico: torna visível o que a burocracia ignora, obriga os serviços a responder, expõe falhas. Sem ela, cada cidadão sente que o seu problema é só seu. Falta quem ligue os pontos.

Uma cidade sem jornalismo local perde memória. Quem acompanha um bairro ao longo de vinte anos? Quem compara promessas eleitorais com decisões presentes? Quem guarda a história das coletividades, dos comerciantes, das escolas?

As redes sociais não resolvem isto: amplificam denúncias, mas também amplificam ruído, raramente oferecem verificação ou continuidade. Os grandes meios nacionais também não: só olham para a Amadora quando há crise, crime ou polémica. A vida corrente do município não interessa às televisões nacionais. E quando interessa, chega sem contexto.

Uma imprensa local digna desse nome deve incomodar todos: Câmara, partidos, juntas de freguesia, empresas municipais, oposição. Não deve ser instrumento de ninguém.

A saída não é mais comunicação municipal. É transparência real: publicar contratos, atas e dados de forma acessível e pesquisável. É criar condições para que meios independentes possam existir sem depender financeiramente de quem deveriam escrutinar. É discutir, com seriedade, modelos de apoio ao jornalismo local que não transformem a imprensa em cliente do poder.

A Amadora não precisa só de ser governada. Precisa de ser observada.

Numa cidade onde o único meio local depende financeiramente das instituições que deveria escrutinar, o silêncio não é um acidente. É o modelo.

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