O Estado que celebra o 25 de Abril é o mesmo que o deixa parado
- Abril 20, 2026
- Eduardo Conceição
O museu do 25 de Abril não é em Lisboa, é na Amadora
Discutem o nome.
Museu. Centro interpretativo. Espaço de memória.
Discutem o conceito.
Se a liberdade se “expõe”. Se se “interpreta”.
Mas não fazem o essencial. O projeto está parado.
E isso diz tudo.
O projeto do Centro Interpretativo do 25 de Abril está parado
O Estado português prometeu um centro interpretativo do 25 de Abril.
Anunciou. Protocolou. Calendarizou.
E depois fez o que tantas vezes faz: adiou, hesitou, desapareceu.
Hoje, não há espaço disponível, não há calendário definido e o financiamento previsto não foi executado.
Há apenas um projeto suspenso, e um país que não consegue concretizar a sua própria memória.
Abril deu liberdade, Novembro garantiu a democracia
Mas há um erro mais profundo do que o atraso.
É o erro de origem.
A ideia de que a memória do 25 de Abril se resolve num edifício em Lisboa.
Como se a liberdade não tivesse nascido ali.
Nasceu.
No Terreiro do Paço. Naquele dia em que o regime caiu.
Mas a história não acabou aí.
Porque a liberdade proclamada em abril
teve de ser defendida em novembro.
E essa defesa não aconteceu nos salões de Lisboa. Aconteceu no terreno.
O papel decisivo dos Comandos da Amadora
O 25 de Abril desencadeou o Processo Revolucionário em Curso (PREC).
Um período de instabilidade, conflito e tensão política real.
A democracia portuguesa não ficou garantida em 1974.
Teve de ser defendida.
E foi defendida a 25 de Novembro de 1975.
E aqui, a história ganha um lugar concreto: a Amadora.
O Regimento de Comandos da Amadora foi determinante na contenção da tentativa de golpe que colocava em causa as liberdades conquistadas.
Não é uma leitura ideológica.
É um facto histórico.
A própria historiografia militar sublinha o papel central dos Comandos e de Jaime Neves nas operações desse período.
E essa história não é abstrata.
Tem nomes.
Tem decisões.
Tem custo humano.
Dois militares dos Comandos foram abatidos na Calçada da Ajuda, o 2.º Furriel Miliciano Comando Joaquim dos Santos Pires e o Tenente Comando José Eduardo Oliveira Coimbra, durante o ataque ao Regimento da Polícia Militar, a 26 de novembro de 1975, na sequência dos acontecimentos do 25 de Novembro.
Foi aí que se percebeu que a democracia não seria entregue sem resistência.
Porque a memória não deve ficar em Lisboa
E, no entanto, querem resolver tudo num edifício no Terreiro do Paço.
Como se a história pudesse ser centralizada.
Como se a memória fosse apenas simbólica.
Mas não é.
A liberdade nasceu em Lisboa. Mas foi consolidada no país real.
A Amadora como lugar certo para o museu
Se queremos levar a sério a memória do 25 de Abril, temos de fazer uma escolha.
Continuar a tratá-la como um objeto institucional ou devolvê-la aos territórios onde ela foi vivida.
A Amadora não é um detalhe.
Foi o primeiro concelho criado após o 25 de Abril.
É um território que nasce da mudança
e que participa na sua consolidação.
Por isso, a pergunta não é onde cabe o museu.
É onde faz sentido colocá-lo.
Onde a história ganha sentido.
E aí, a Amadora deixa de ser hipótese e passa a ser evidência.
Ignorá-la não é um erro.
É uma escolha.
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