O Estado que celebra o 25 de Abril é o mesmo que o deixa parado
- Abril 20, 2026
- Eduardo Conceição
Museu, centro interpretativo, espaço de memória.
Discutimos o conceito.
Se faz sentido “musealizar” a liberdade.
Se é melhor algo mais moderno, mais interativo, mais neutro.
Discutimos tudo, menos o essencial.
O projeto está parado.
E isso diz muito mais sobre o país do que qualquer debate semântico.
Em 2024, o Estado português fez o que tantas vezes faz: anunciou, protocolou, prometeu. Ficou definido um centro interpretativo do 25 de Abril, com abertura prevista para 2026, no Terreiro do Paço.
Dois anos depois, o resultado é simples:
não há espaço, não há calendário, não há financiamento executado.
O edifício deixou de estar disponível, porque o MAI não foi deslocalizado.
As verbas não chegaram.
E o projeto entrou naquele limbo tipicamente português onde nada é cancelado, mas nada acontece.
Chamam-lhe prudência.
Na prática, é desistência sem assumir.
Há quem diga que isto é apenas um problema técnico.
Outros preferem ver aqui um combate ideológico.
Ambos falham o ponto.
Isto é, acima de tudo, um problema de Estado.
Um Estado que assina compromissos e não os cumpre.
Que cria expectativas e depois as abandona.
Que celebra datas históricas, mas falha naquilo que lhes dá continuidade.
O anterior Presidente da República admitiu que o processo “está a demorar muito tempo”.
É uma forma elegante de dizer o óbvio:
ninguém decidiu levar isto até ao fim.
Mas há algo ainda mais desconfortável neste debate.
Estamos obcecados com onde colocar o museu, e esquecemo-nos de perguntar o que ele deve representar.
Se a liberdade nasceu de um movimento real, vivido, distribuído pelo país, faz sentido fechá-la num edifício institucional no centro de Lisboa?
Ou isso é apenas a forma mais fácil, e mais cómoda, de a domesticar?
Talvez o problema não seja o nome do projeto.
Nem sequer o conceito.
Talvez o problema seja o reflexo automático de centralizar tudo.
De transformar a memória num postal turístico.
Se queremos honrar o 25 de Abril, então temos de olhar para os territórios onde ele foi vivido, não apenas para os lugares onde fica bem colocá-lo.
E nisso, a Amadora não pode ser ignorada.
Não como nota de rodapé.
Mas como parte da história.
Se queremos honrar o 25 de Abril, então temos de sair do conforto do Terreiro do Paço e olhar para os territórios onde a liberdade foi vivida, não apenas onde fica bem representá-la. A Amadora não é um detalhe nesta história. É parte dela. É território de mobilização, de transformação social, de contacto real entre o país que existia e o país que emergiu depois da revolução. Insistir em concentrar tudo num edifício em Lisboa é repetir o erro de sempre: centralizar a memória, afastá-la das pessoas e transformá-la num objeto distante. Talvez esteja na altura de fazer o contrário, aproximar a história de quem a viveu. E nisso, a Amadora não é uma alternativa. É uma escolha óbvia que ninguém quer assumir.
O 25 de Abril não precisa de mais cerimónias.
Precisa de decisões.
Não precisa de mais discursos.
Precisa de execução.
E não precisa de mais debates sobre nomes.
Precisa de um compromisso sério com a memória, e com o futuro.
Porque quando um país não consegue concretizar o seu próprio legado, o problema já não é o museu.
É o próprio país.
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