Quando a Cultura de um Partido se Torna a Cultura de uma Cidade
- Agosto 10, 2025
- Eduardo Conceição
Se trabalhas na Câmara Municipal da Amadora, isto também é para ti.
Se és munícipe, igualmente.
Este é um convite para olharmos de frente para aquilo que se tornou a cultura da nossa autarquia, e para percebermos que é possível fazer diferente.
Nos últimos tempos, foi o próprio Partido Socialista, na sua estrutura local, a deixar escapar para o espaço público um retrato preocupante. Militantes a queixarem-se de que os estatutos foram ignorados. Outros a dizer que só são chamados para votar. Há quem fale num “grupinho” a levar o PS Amadora à falência política. Comentários sobre falta de democracia interna, nomeações pouco transparentes e decisões tomadas à porta fechada.
Isto não são palavras minhas, são palavras deles. E valem a pena ser ouvidas, porque mostram que algo vai muito mal.
Mas não é só a política interna de um partido que está em causa. Quando a cultura organizacional de quem governa se enraíza durante quase três décadas, os seus tiques e métodos acabam por se infiltrar também na forma como a Câmara funciona. E aí, todos sentimos. Funcionários e munícipes.
Há muito tempo que se confunde autoridade com microgestão. Que se mantém um clima de medo e silenciamento. Que se infantiliza quem trabalha, como se a Administração Pública fosse um privilégio concedido e não uma missão de serviço. Não admira que tantos optem por se desligar emocionalmente do trabalho, aquilo a que se chama hoje quiet quitting. Não é preguiça: é o sintoma de um emprego tóxico, que rouba energia, saúde e autoestima.
E os números não enganam: segundo o Global Work Wellbeing Report 2024, apenas um em cada cinco trabalhadores sente que está a prosperar no seu trabalho e quase 60% vive em stress constante. Mais importante ainda, o estudo sublinha que o que mais pesa no bem-estar não é apenas o salário, mas a sensação de pertença, de ser ouvido e de ter autonomia para fazer bem. Quando isto falta, a produtividade desce, o cinismo cresce e os serviços ao público ressentem-se.
A verdade é que quem aguentou anos de opressão e falta de respeito dentro da Câmara merece o nosso aplauso. E quem saiu — como eu saí — sabe bem o que significa querer trabalhar e ver as ideias barradas apenas por virem de fora do “círculo certo”. Um dia, e não está longe, a Amadora será um município onde pensar diferente é uma mais-valia e não um risco. Onde as boas ideias entram pela porta grande, desde que tragam valor e crescimento à cidade.
Não tenho a arrogância de achar que sei tudo. Mas sei ouvir. Sei que a mudança começa por criar um ambiente onde os trabalhadores municipais se sintam respeitados, apoiados e livres para dar o seu melhor. Quando isso acontecer, a cidade inteira vai sentir a diferença: processos mais rápidos, respostas mais claras, menos burocracia, mais soluções.
A política não pode ser um palco para alimentar vaidades ou conservar poder. Tem de ser um espaço para melhorar vidas. E isso começa dentro da própria casa: a Câmara Municipal.
Se te consideras um servidor público, quero que sintas orgulho em trabalhar para a tua cidade. Se és munícipe, quero que sintas que a Câmara está ali para ti, eficiente, aberta, sem manobras obscuras.
Porque já não sou suficientemente novo para achar que sei tudo. Mas sou suficientemente realista para saber que, juntos, podemos mudar. E, desta vez, para melhor.
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