A Travessa e a Cidade
- Agosto 14, 2025
- Eduardo Conceição
Há cinquenta anos, a política discutia-se nos cantos enevoados dos cafés, entre copos de vinho tinto, de gole lento, e cigarros que se consumiam ao mesmo tempo que as frases, curtas ou longas, mas sempre inteiras. Hoje, serve-se em travessas de casquinha, fatias finas de picanha, cuidadosamente alinhadas para o consumo rápido, mas desprovidas daquele sabor de verdade que só o tempo e a franqueza conferem. Mudou-se a sala, mudou-se a loiça, e até a carne parece outra, mais fotogénica, menos nutritiva.
Durante quatro anos, certos partidos na Amadora foram engordados nos “melhores pastos”, preparados para serem servidos na baixela da política local, suculentos e tenros como se a eleição fosse jantar de gala. Saíram da mesa e entraram no cardápio, carne para outros cortarem. Nem um canto num cartaz lhes coube, que é como dizer que até a fotografia lhes foi tirada da moldura. A Amadora não é o Alasca nem os Açores, mas, em terra de santo, decide-se no adro e em surdina o futuro desta cidade, e dessas conversas de sacristia saem coligações negativas pós-eleitorais, com a mesma leveza de quem troca de prato no intervalo, mas capazes de marcar para sempre o destino desta cidade.
Em 2021, houve muita parra e pouca uva nas mesas de voto, e mesmo assim, quando interesses pessoais, vindos de gente alheia à nossa terra, se alimentam apenas da exposição mediática para conquistar palco, minam por dentro instituições com pergaminhos, transformando-as numa fraca opereta de província. O que se expõe não é apenas a fragilidade da política local. É também a ferida aberta de décadas sem renovação: políticos que já não respiram a cidade e políticas que se repetem como velhos refrões desafinados, incapazes de reacender a chama ou de sacudir o pó acumulado desta política palaciana, estagnada, que já nada traz de novo à Amadora.
Eu, filho desta terra, moldado no carvão incandescente da forja chamada Buraca, rejeito, de uma vez por todas, este elenco de atores — e respetivos artistas convidados — que encaram a governação como banquete de domingo, onde a picanha suculenta, gorda e farta, lhes escorre pelos cantos da boca, salpicando as vestes domingueiras, enquanto o prato do povo vai ficando frio.
E é também a vós que me dirijo, aqueles que, tendo acreditado noutros tempos nas virtudes de uma social-democracia séria e com raízes, hoje olham para a vossa casa e já não reconhecem as paredes, os móveis ou sequer o cheiro do café de manhã. Sei que há entre vós quem se sinta órfão, quem se sente deslocado no próprio lugar, quem desconfie dos sorrisos de catálogo e dos cartazes que escondem os nomes como quem esconde a mão que recebe o aperto. Acreditai-me: não é vergonha mudar de sala quando a vossa está às escuras. Há mesas onde o prato é servido com honestidade, onde a capa de gordura não é maquilhagem mas sabor, onde o cozinheiro não troca o cardápio na hora de servir. Um dia, quiçá, podereis recuperar as vossas cores, e que elas brilhem como no tempo em que eram bandeira e não pano de adorno, mas, até lá, estai certos de que a essência dessa social-democracia que respeita a cidade e quem nela vive está mais viva aqui, onde a liberdade se senta sem pedir licença e o compromisso não se retira antes da sobremesa.
Por isso, no dia em que vos chamarem à urna, levai convosco a memória do que foi prometido e o gosto amargo do que vos foi servido. Escolhei com a lucidez de quem sabe que o voto é o único tempero capaz de mudar o prato que nos servem. A Amadora não precisa de mais convivas de domingo; precisa de quem saiba acender o lume à segunda-feira e o mantenha aceso toda a semana.
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